A importância da carga correta em sistemas VRV
Os sistemas VRV (ou VRF) se destacam pela eficiência energética e flexibilidade em projetos de climatização. No entanto, como qualquer sistema de expansão direta, são extremamente sensíveis à carga de fluido refrigerante. Um erro aqui, para mais ou para menos, pode comprometer toda a operação. Mas afinal, qual é o primeiro problema que aparece quando a carga está errada?
Antes de mais nada, é importante entender que o fluido refrigerante nos sistemas VRV tem um papel crítico. Sim, pois ele não só realiza a troca térmica, mas também está diretamente ligado à pressão, temperatura, capacidade de resfriamento e aquecimento, e ao desempenho dos compressores. Por isso, qualquer desvio impacta o sistema como um todo.
Sinais iniciais de carga de fluido refrigerante errada no VRV
A resposta direta para a pergunta do título é: a perda de performance é o primeiro sinal detectável. Mas esse sintoma pode se manifestar de várias formas, dependendo se a carga está acima ou abaixo do recomendado.
Carga insuficiente de fluido refrigerante: Sistema “leve” demais, principais sinais
Quando a carga está abaixo do ideal:
- O sistema demora mais para resfriar ou aquecer.
- Os evaporadores trabalham parcialmente secos, o que prejudica o rendimento.
- Pode haver alertas de erro por pressão baixa ou temperatura de descarga anormal. Se tomarmos o VRV da Daikin como exemplo, o erro “F3”, independente da linha, se mais velha ou mais nova, tende a aparecer. Aliás, quando ele aparece é porque a carga de fluido já está bem baixa.
- Em alguns casos, o compressor opera em frequência mais alta, tentando compensar a perda de capacidade.
- Aparecimento de bolhas no visor de líquido, se o sistema possuir um, por óbvio.
Essa situação também pode provocar retorno de óleo insuficiente ao compressor, o que aumenta o desgaste prematuro e eleva o risco de falha.

Carga excessiva de fluido refrigerante: Sistema “pesado” o que acontece
Se a carga for maior do que o necessário:
- A pressão de descarga do compressor tende a subir rapidamente.
- O sistema pode apresentar alarmes de proteção por alta pressão.
- O condensador não consegue dar conta da troca térmica, e o sistema opera com menor eficiência.
- A carga extra ocupa espaço útil na linha de líquido, comprometendo a expansão correta.
- O consumo de energia aumenta, mesmo sem melhora no desempenho.
Além disso, o excesso de fluido refrigerante pode ser confundido com falhas de sensor ou válvula, gerando diagnósticos incorretos.
Como saber se a carga está correta em sistemas VRV?
Diferente dos splits convencionais, os sistemas VRV exigem um procedimento técnico específico para a carga ideal. O processo depende do:
- Comprimento total das tubulações,
- Número de evaporadoras instaladas,
- Tipo de fluido refrigerante (R-410A ou R-32, por exemplo),
- Volume interno do sistema.
Para garantir a carga exata, recomenda-se seguir o cálculo do fabricante, com base no comprimento linear da instalação e o diâmetro das tubulações.
Exemplo do VRV IV Inova da Daikin:
R = (LL1/4 x 0.022) + (LL3/8 x0.059) + (LL1/2 x 0,12) + (LL5/8 x 0.18) + (LL3/4 x 0,26) + (LL7/8 x 0,37) + C, onde C é a quantidade de fluido a ser acrescido de acordo com a capacidade do condensador, tabela abaixo.

Suponhamos que R no seu caso foi calculado em 23,7 kg e o seu condensador, módulo único, é de 36 HP, portanto, R será a soma de 23,7 + 8,6 (obtido da tabela acima para condensador 36 HP) = 32,3 kg –> Este é o valor a ser acrescido na instalação.
Além disso, é essencial o uso de ferramentas apropriadas, como:
- Balança eletrônica de precisão;
- Medidor de pressão e temperatura;
- Ferramenta de comissionamento (como o Service Checker, no caso da Daikin).
O que pode dar errado se a carga estiver incorreta?
Mesmo que o sistema funcione aparentemente bem, a carga errada de fluido refrigerante pode desencadear problemas sérios ao longo do tempo, como:
- Falha prematura do compressor, por superaquecimento ou retorno irregular de óleo.
- Desbalanceamento térmico entre os ambientes climatizados.
- Alarmes recorrentes e desligamentos frequentes.
- Baixa eficiência energética, refletindo diretamente na conta de luz.
- Dificuldade no diagnóstico de falhas, com perda de tempo e custo em assistência técnica.
Dicas para evitar erros na carga de fluido refrigerante
Antes da carga
- Faça sempre vácuo com pelo menos 500 microns. Praticamente todos os fabricantes recomendam essa faixa.
- Verifique se todas as válvulas estão abertas.
- Use apenas o fluido refrigerante indicado pelo fabricante. Como exemplo, caso o fabricante esteja presente no dia do Start Up e o fluido refrigerante disponível (comprado pelo fabricante) não é de primeira linha, o Start Up não vai ocorrer. Sim, pois os fabricantes se recusam a fazê-lo. Portanto, compre e use fluido refrigerante SOMENTE de primeira linnha. E lembre-se, em se tratando de VRV não há sentido para economias “burras”.
Durante a carga
- Use balança digital de precisão, mesmo para ajustes pequenos.
- Carregue o fluido sempre em fase líquida (nos sistemas VRV que utilizam R-410A ou R-32). Geralmente, cilindro de cabeça para baixo em cima da balança.
- Nunca “complete a carga no olhômetro”, pois esse é um erro comum, perigoso e oneroso em virtude da grande possibilidade de retrabalho.
Após a carga
- Rode o sistema em modo test-run (ou auto-test) e monitore:
- Pressões de alta e baixa
- Temperatura de descarga
- Sub-resfriamento e superaquecimento
- Verifique se há diferença de performance entre evaporadoras pois isso pode indicar carga incorreta ou válvulas com defeito.

Conclusão: a precisão é o segredo no VRV
Em suma, nos sistemas VRV, a carga de fluido refrigerante errada não é apenas um detalhe técnico: é um fator determinante para a vida útil e o desempenho do equipamento. Entretanto, o primeiro problema a aparecer pode ser sutil, como uma simples perda de rendimento, mas com o tempo se transforma em falhas sérias.
Quem é um pouco mais experiente, assim como este que vos escreve, conhece o trabalho que era antigamente para fazer o ajuste do superaquecimento e do subresfriamento. O superaquecimento, por exemplo, era ajustado manualmente. O técnico media a pressão de sucção e a temperatura da linha de sucção, comparava com a tabela PressãoxTemperatura do fluido e calculava a diferença: esse era o superaquecimento. Com esse valor, ele ajustava a válvula de expansão termostática (VET) para garantir que o evaporador funcionasse corretamente, sem retorno de líquido ao compressor. Era um processo técnico que exigia precisão e prática.
Então, os sistemas VRV uma vez calculada a quantidade de fluido adicional conforme orienta o fabricante ( uma “receita de bolo”) no seu catálogo de engenharia, o problema fica resolvido para sempre. É a garantia de que o equipamento fará o superaquecimento e subresfriamento dentro da faixa de projeto e sem problemas durante toda sua vida útil, pelo menos na teoria é isso.
Por isso, a melhor prática é sempre seguir as orientações do fabricante, investir em instrumentos de medição confiáveis e contar com profissionais capacitados. No VRV, cada grama de fluido conta, literalmente.
Eu fico por aqui.
Abs



























































